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Selic a 7,5% em um ano: os impactos mais prováveis da proposta de André Lara Resende

Análise · Mercado

Um dos pais do Plano Real propõe cortar os juros quase pela metade e criar um conselho para definir as metas do Banco Central. Veja o que pode acontecer com a inflação, o dólar, a dívida pública e o seu bolso.

Por Redação Plantão Informa · 3 de novembro de 2026 · 7 min de leitura

Logo depois da reeleição do presidente Lula, uma proposta do economista André Lara Resende voltou ao centro do debate econômico. Um dos formuladores do Plano Real e ex-presidente do BNDES, ele defende reduzir a taxa básica de juros, hoje em 13,75% ao ano, para cerca de 7,5% em até 12 meses. Depois disso, a Selic ficaria numa faixa permanente entre 3% e 5,5%. A notícia de que ele poderia se reunir com o presidente bastou para deixar o mercado financeiro em alerta.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que haja encontro marcado e disse que o governo não discute "tabelar" os juros. Mesmo assim, a proposta mexe com expectativas, e expectativas movem preços. O Plantão Informa explica o que está sendo proposto e quais são os efeitos mais prováveis.

O que diz a proposta

As ideias foram detalhadas no ensaio "Eu Acuso", publicado por Lara Resende em setembro. Os pontos centrais são:

1. Juros longos e inflação esperada: o efeito mais imediato

O primeiro impacto não depende de a proposta ser adotada. Basta que o mercado considere a chance de ela virar política oficial. A Selic é decidida pelo Banco Central, mas os juros dos títulos de prazo mais longo, que servem de base para financiamentos imobiliários e empréstimos às empresas, são formados pelo mercado. Se os investidores passam a achar que a inflação vai subir no futuro, eles exigem taxas maiores para emprestar ao governo por cinco ou dez anos.

O resultado mais provável, no curto prazo, é um paradoxo: a Selic em queda e os juros longos em alta. Economistas chamam esse risco de "dominância fiscal", quando a política de juros passa a ser guiada pela necessidade de aliviar a dívida e não pelo controle da inflação. Por isso a principal preocupação levantada por analistas é que, no fim, o ajuste venha pela inflação.

2. Dólar: pressão de alta e o limite das reservas

Juros mais baixos tornam o Brasil menos atraente para o capital que busca rendimento, e parte desse dinheiro tende a sair. É o próprio Lara Resende quem admite pressão inicial sobre o câmbio. Daí a ideia de usar as reservas.

Críticos lembram dois limites. O primeiro é que as reservas funcionam como um seguro contra crises externas, e a ex-secretária do Tesouro Ana Paula Vescovi alertou que elas não são "cheque especial" para uma aposta monetária. O segundo é que não são só os estrangeiros que compram dólar: famílias e empresas brasileiras também buscam proteção quando desconfiam da moeda, e uma pressão persistente pode transformar intervenções pontuais em vendas recorrentes de reservas. Há ainda um detalhe contábil: as reservas foram compradas com emissão de dívida, então usá-las não é dinheiro "grátis".

Um dólar mais caro chega rápido aos preços de combustíveis, trigo, eletrônicos, remédios e insumos agrícolas.

3. Inflação: o risco que define o resultado

A meta de inflação do Brasil é de 3% ao ano. Se o corte de juros vier acompanhado de dólar em alta e expectativas desancoradas, a inflação tende a subir. Isso corrói os salários e atinge mais quem não tem como se proteger.

Os críticos citam a Turquia como exemplo extremo. Lá, a pressão política por juros baixos levou a inflação a passar de 80% ao ano, e o país acabou obrigado a elevar os juros para mais de 50%. O Brasil tem regras e instituições diferentes, mas o caso turco mostra o custo de perder a confiança na moeda.

Os defensores da proposta respondem que a inflação brasileira atual não é de demanda descontrolada e que juros reais entre os mais altos do mundo sufocam a economia sem necessidade.

4. Dívida pública: a economia prometida depende de tudo dar certo

Boa parte da dívida brasileira é corrigida pela Selic ou vence em prazos curtos. Por isso um corte de juros reduz rapidamente o custo de parte dela, e essa é a força do argumento de Lara Resende.

A conta, porém, só fecha se os juros longos e a inflação não subirem no caminho. Se o mercado cobrar mais para financiar o governo, o alívio em uma ponta é anulado na outra. Por isso muitos economistas tratam a economia de 4% do PIB como otimista demais.

Outra crítica vem do lado do gasto. Economistas como Samuel Pessôa, da FGV, lembram que a despesa obrigatória cresce, já descontada a inflação, duas a três vezes mais que o PIB, e que a proposta não trata desse ponto.

5. Crédito, consumo e bolsa: o lado que anima

Se a proposta funcionasse como planejado, os ganhos seriam concretos:

O lado oposto também existe. A renda fixa renderia menos, e o investidor da poupança, do Tesouro Selic e dos CDBs sentiria a diferença. Se o corte vier com inflação mais alta, os ganhos do crédito barato se perdem nos preços.

6. A barreira institucional

Desde 2021, a Lei Complementar 179 garante autonomia ao Banco Central, com diretores de mandato fixo. Já existe ainda o Conselho Monetário Nacional, que define a meta de inflação. Criar um novo conselho com poder sobre os juros exigiria mudar a lei no Congresso, num debate longo e incerto. Ou seja, a proposta não sai do papel por decisão do governo sozinho.

Os cenários mais prováveis

O que fica para o leitor

O debate é legítimo. O Brasil tem um dos maiores juros reais do mundo, e o custo da dívida pesa no orçamento. Lara Resende tem a seu favor a experiência de quem ajudou a vencer a hiperinflação, e defensores como o coordenador do programa de governo, Sérgio Gabrielli, viram mérito nas ideias. Do outro lado, a maioria dos economistas de mercado e ex-dirigentes do Banco Central avalia que cortar juros por decisão política, sem controlar os gastos obrigatórios, tende a cobrar a conta em inflação e dólar mais alto. O que vai definir o impacto real não é a proposta em si, mas quanto dela o governo decidir abraçar e como o mercado vai reagir a isso.

Fontes: CNN Brasil, Seu Dinheiro, Termômetro da Política e Banco Central.

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